Poema do esquecimento

o café frio como os lábios de um morto 
eu deixei de lado 
como deixei de lado a lembrança da luz dos teu olhos 
o cigarro metade queimado, largado na boca do cinzeiro, lambendo suas próprias cinzas 
eu deixei de lado 
deixei de lado como deixei de lado o perfume da tua voz 
perfume que tanto ouvi 
nos ônibus sacolejantes 
nas ruas cheias de gente e desprezo, cheias de amor e ódio - nas ruas das possibilidades perdidas e das possibilidades encontradas, das possibilidades tantas vezes desperdiçadas 
a minha vida, o café frio, o cigarro queimado, deixei de lado 
a minha vida que foi sua voz, seus gestos, seus risos, seus choros (tão doces choros!) 
a minha vida que foi, principalmente e talvez só isso - a lembrança disso tudo (a lembrança dos sonhos que você foi) 
a minha vida! deixei de lado 
eu, que me desfaço no cinzeiro sincero do meu quarto, esse meu amigo de tantos cigarros tantas mais solidões, minha urna, meu crematório de bolso, eu, contemplando minhas próprias cinzas que um dia amaram, e lembraram e amaram e lembraram (a vida se passa é no passado) 
Mas agora que sua voz 
como um albatroz abatido 
despencou do céu às cinzas 
agora que seu rosto não mais se reflete no espelho em que me olho 
nem nos ônibus 
nem nas ruas 
nem nas dores 
nem nas rosas 
agora que aos seus olhos os meus têm antolhos 
agora que seu rosto 
que pra mim já foi deus - e demônio 
já foi anjo - e prostituta 
agora que seu rosto 
que já foi lindo, já foi feio 
já foi jovem, já foi velho 
agora que seu rosto 
profundo, puro, raso, roto 
me desapareceu 
como um maldito morto 
deixo de lado 
o passado que passei e fui 
neste presente imprestável: a morte mais forte que a morte.

Fabio Danesi

"Tenho um quarto de século, mas me sinto um homeless nesses tempos de decadência cultural. Meu principal objetivo é me aprofundar na alma dos homens, embora ache o corpo da mulher infinitamente mais interessante. Por uma fatalidade geográfica, nasci no Brasil, mas meu país de coração começa na sola dos meus pés e termina no meu último fio de cabelo. Não sou negro, nem gay, nem deficiente físico. Sou fumante. Nunca conheci ninguém parecido comigo, portanto me considero a menor das minorias. Como Saul Bellow, gosto do que é bom e não gosto do que é ruim. Acredito em deus, mas ele não acredita em mim. Tenho manias extremamente estranhas, como pensar e amar. Nasci sabendo tudo, mas fui esquecendo com a idade. A maturidade, que ameaça bater em minha porta, parece vir da completa ausência de certezas. Mas não tenho certeza disso. Não sou homem de ambição. Daria meu pequeno reino por um pônei. No mais, sou consistente como o vento, e grandioso como um grão (grãodioso, diriam os irmões Campos Brothers). E, como é po ssível observar, termino sempre meus textos com uma piada ruim, evitando assim causar boa impressão. Odeio mal-entendidos. Que pelo menos isso fique claro."

O autor, junto com Rafael Azevedo, é um dos idealizadores do site:
 
www.pindorama.net